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Grande Prémio Fundação EDP Arte consagra o artista plástico Artur Barrio

Conta que no Brasil é português e que em Portugal é brasileiro; que pertence ao mundo todo, mas que é de parte nenhuma. De 1945, ano do seu nascimento, até 1955, ano da sua viagem sem retorno até ao Brasil, bebeu de vísceras portuguesas na cidade do Porto. Abusa de reticencias quando escreve, mas não hesita na descrição: “sou um português com veia de marinheiro”. É Artur Alípio Barrio de Sousa Lopes; foi o jovem que aos 22 anos provocou o mundo com atos, apelos, interferências, sinónimos repetidos das dúvidas lançadas sobre o que era, afinal, a arte no início dos anos 60.

Na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, os cadernos livres de registos e anotações datadas de 1969, delineavam o afastamento do tradicional com que trabalhava. Começa por criar as Situações não cedo demais - aos 24 anos; obras feitas a cru, com lixo, materiais orgânicos (papel higiénico, detritos humanos, carne em decomposição, etc) e outros objetos fora do convencional, deixadas em espaço urbano a cargo de quem as via.

Contra as categorias da arte e a situação política e social brasileira, Barrio lança, em 1970, 14 trouxas ensanguentadas com carne, ossos e sangue ao rio Arrudas durante a coletiva Do Corpo à Terra. Um entre vários exemplos que tornavam a sua caracterização cada vez mais difícil.

Em 74 visita Portugal e presencia a revolução dos Cravos. Realiza situações como 4 Movimentos e 4 pedras e a escultura Metal/Sebo Frio/Calor. Também nessa época, faz performances, esculturas, livros e cadernos de artista e expõe as obras desta série na 17ª Bienal Internacional de São Paulo. Os anos 2000 trazem-no de volta à Invicta, onde expôs em nome individual - Regist(R)os, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Em 2011 foi o único representante do Brasil na 54ª Bienal de Veneza.

“As coisas não são representadas, são vividas”, explica o próprio. São mais de 40 anos dedicados à arte da apropriação e envolvimento psicológico; uma carreia devota à prática artística, reconhecida em 2011 com o Prémio Velázquez de Artes Plásticas e agora com o Grande Prémio Fundação EDP Arte 2016.

“Atitude é um conceito chave no trabalho de Artur Barrio. O que está presente nessa palavra – que ele transformou vezes sem conta nos seus trabalhos, situações e performances – é uma noção do pessoal, da reação individual às circunstâncias, ao nosso tempo”, realça Chus Martinez, curadora e diretora do Institute of Art da FHNW Academy of Art and Design em Basel e um dos membros do júri.

Com a atribuição do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2016, Artur Barrio será homenageado através de uma exposição de caráter retrospetivo e/ou antológico, com a publicação de um catálogo que constitui uma importante referência historiográfica e bibliográfica, bem como com a atribuição do valor pecuniário de 50 mil euros.

O júri foi constituído por António Mexia (Presidente do Conselho de Administração Executivo da EDP e Presidente da Fundação EDP), Pedro Gadanho (Diretor do MAAT), João Pinharanda (Historiador e Crítico de Arte e atual Adido Cultural junto da Embaixada de Portugal em Paris), Hans Ulrich Obrist (Diretor Artístico da londrina Serpentine Galleries), Suzanne Cotter (Diretora do Museu de Arte Contemporânea de Serralves), Chus Martinez (Diretor do Basel Art Institute), Emília Tavares (Conservadora e Curadora para a área da Fotografia e Novos Media, no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado) e Nuno Crespo (Investigador e Crítico de Arte).

Na história das edições do Grande Prémio Fundação EDP Arte, já foram distinguidos grandes nomes da arte contemporânea nacional como Lourdes Castro (2000), Mário Cesariny (2002), Álvaro Lapa (2004), Eduardo Batarda (2007), Jorge Molder (2010) e Ana Jotta (2013).