Exposições

PRÉMIO EDP NOVOS ARTISTAS 2011

Vários

1 julho a 18 setembro 2011

Lisboa

Museu da Eletricidade

Nove criadores vão apresentar as suas obras na exposição do Prémio EDP Novos Artistas 2011, que decorre no Museu da Eletricidade, em Lisboa.

O Prémio EDP Novos Artistas foi instituído em 2000. Joana Vasconcelos, Leonor Antunes, Vasco Araújo, Carlos Bunga, João Maria Gusmão e Pedro Paiva, João Leonardo, André Romão e Gabriel Abrantes são os nomes dos vencedores, a que se juntam duas menções honrosas, Maria Lusitano e Mauro Cerqueira. Confirmando a justeza e acerto das escolhas, por vezes muito precoces, o percurso de cada um deles, como o de muitos dos restantes participantes, vem-se afirmando, de modo decisivo, no panorama nacional e internacional.

Atualmente, o Prémio EDP Novos Artistas, no valor de 10 mil euros, tem ritmo bienal e é atribuído por um júri internacional, na sequência de uma exposição coletiva que tem tido lugar em instituições como o Museu de Serralves, no Porto, o CCB, em Lisboa, ou nas instalações do Museu de Eletricidade, também em Lisboa e gerido pela Fundação EDP. O comissariado responsável pela seleção de finalistas foi, em 2011, constituído por dois críticos convidados (Delfim Sardo e Nuno Crespo) e por João Pinharanda, como representante da Fundação EDP. A vencedora da presente edição, Priscila Fernandes, foi anunciada no dia sete de setembro, altura em que se apresentou também o catálogo da exposição.

 

A 9ª edição deste prémio bienal, que tem por objetivo promover a criação artística e distinguir os valores emergentes da arte contemporânea portuguesa, contou com a participação de 408 candidatos.

Ana Manso |André Trindade |Carla Filipe |Catarina Botelho |Catarina Dias |João Serra |Nuno da Luz |Priscila Fernandes |Vasco Barata

 

1.

Ana Manso é pintora e a sua obra explora a subtileza dos valores da cor, da luz, do espaço. Nas pinturas que aqui se veem gere transparências delicadas e inesperadas opacidades, equilibra a liberdade abstrata do gesto e o acaso (quase) aleatório das tintas com um estudo muito preciso das condições do lugar e condições de exposição. É nesse sentido que desenvolve a sua longa pintura mural (onde incorpora todo o conhecimento e descoberta do espaço que a rodeia) e que complementa essa pintura com um pequeno conjunto de telas que, realizadas noutro contexto, introduzem diferentes vozes e tensões no seu trabalho.

 

2.

André Trindade trabalha preferencialmente no sentido de integrar o espectador em cenários de difícil ou impossível decifração: de todo o modo lugares rituais de convívio. Aqui, no ambiente criado (uma espécie de sala de um café-ideal), percebe-se uma vontade de síntese e uma realidade em tensão. Cada objeto e seu lugar no espaço, cada som e a intensidade escolhida, cada imagem e referência que a sustenta funcionam como simbologias biográficas e sociológicas, artísticas e políticas que nos convidam a ser personagens.

 

3.

O trabalho de Carla Filipe desenvolve-se sobre uma série de códigos e convenções da comunicação de massas. Ao mesmo tempo que esconde alguns elementos de identificação imediata dessas convenções (os sinais gráficos dos cartazes), a artista expõe de modo evidente os restantes (as composições formais e cromáticas). A artista desenvolve um trabalho obsessivo sobre a memória (que pode ser pessoal, política, artística ou sindical). As referências a um universo muito particular (o dos Caminhos-de-Ferro) tornam-se universais quando ela cita quer a cenografia política (as bandeiras, os cartazes, a estrutura efémera do Pavilhão) quer histórica (a exposição de documentos).

 

4.

As fotografias de Catarina Botelho recolhem e compõem memórias. Nesse sentido se entende o tempo longo que guardam e o tempo imediato que oferecem. São imagens que guardam o que lhes não pertence: o que roubam aos fabricantes e aos usuários dos instrumentos e lugares que registam, ou seja, as associações de cores e luzes, de volumes e vazios, de tempos antigos e atuais. São imagens que oferecem o que registam como sendo real. Nesse sentido, o que nelas vemos pode ser entendido como escultura (como volume), deve ser pensado num espaço tridimensional, tem que ser vivido num tempo contínuo, não no tempo imediato da fotografia. Vazias de personagens estão cheias de uma vida que continua para além delas.

 

5.

O desenho de Catarina Dias surge como um ato de cuidadosa construção. Pela sua grande dimensão, assume o estatuto de uma intervenção mural, quase a de um grafito urbano. Pela disposição dos elementos de aço polido no chão, revela a intencionalidade da artista em trabalhar a ideia e prática do duplo, aqui garantida pela reflexão invertida do espelho. Muito do delicado e complexo trabalho mural tem origem nesses exercícios de duplicação, a grande colagem central é constituída por fotocópias (que são em si mesmas duplos) e o “livro de artista”, apresentado em complemento da grande peça de desenho, foi feito com a intervenção de um conjunto de pessoas que, sob direção da artista, procuravam duplas autorias ou se assumiam como duplos de si mesmos.

 

6.

Ao escolher a arquitetura como tema, João Serra não procurou um ponto de vista globalizante (a Cidade, o Moderno), mas um elemento particular (antropologicamente significativo), marcado no espaço e no tempo (as casas de campo russas). Ora as "dachas" (e a sua persistência histórica) representam um elemento de individualismo, um elemento de perturbação na utopia coletivista da arquitetura e urbanismo soviéticos. Porém, as fotografias, ao serem apresentadas segundo uma quadrícula, enquadradas e registadas como objetos de um estudo, que se sugere sistemático, é como se pertencessem a fichas de uma tabela de classificação destinada a reduzir toda a diversidade às leis de um estudo científico. Há uma ironia crítica nesta modalidade de registo e apresentação: a diversidade interior das formas e cores, a profusão de elementos acessórios à imagem, a sugestão rítmica de uma narrativa interior a cada foto (a cada testemunho de vida dos seus habitantes) sugere-nos a impossibilidade de uniformizar a diferença.

 

7.

Este trabalho de Nuno da Luz é para escuta/para audição. Aproximamo-nos do amplificador (que funciona como uma escultura) e ouvimos um som. Nunca será o mesmo, nunca sabemos o que será. No entanto, há um grau de previsibilidade e de constância nesse som: é um som ambiente, vem do exterior, revela movimentos de água, motores, ventos, gritos humanos, talvez. Os trabalhos deste artista são sobre sons que se (auto)produzem e reproduzem e explicitam sempre os meios técnicos que permitem obter esse resultado e obrigam-nos a enfrentar a duração contínua do tempo. Neste caso, teremos que ir ao exterior do Museu para ver a continuidade da peça: dois balões meteorológicos que, no leito do rio, junto à margem, registam e transmitem, por sinal rádio, a vida sonora do Tejo.

 

8.

Em dois diferentes vídeos, Priscila Fernandes, servindo-se da coreografia dos jogos, confronta-nos com a observação de sistemas: momentos de acerto e erro, de demonstração e repetição, de precisão construtiva e destruição consciente. As cores da paleta modernista, os gestos domésticos, os elementos ou peças de jogo e/ou os tabuleiros de jogo remetem-nos para contextos quotidianos e exercícios cognitivos, para as regras compositivas e vivenciais da arquitetura modernista e para testes de desenvolvimento infantil. 

O discurso artístico é abordado através da "natureza-morta"; o pensamento Moderno através da quadrícula ortogonal e cores primárias; a sociedade produtiva, através do controlo das capacidades dos protagonistas em gerirem os valores da geometria e da música. Esta encenada rendição à lógica, às regras e aos sistemas é uma constante na obra da artista, que interroga estas realidades empregando por vezes uma linguagem que as leva ao absurdo, ao exagero, à voluptuosidade. Espera, assim, chegar a uma nova perceção e representação crítica das mesmas.

 

9.

Vasco Barata trabalha sobre imagens que registam múltiplas memórias do mundo: espaços reconhecidos e coisas já existentes associadas de modo sistemático ou inesperado. Assim, constrói um arquivo que organiza, segundo métodos imprevisíveis, temas vulgares mas obsessivos, que nos precedem mas de que repetidamente nos apropriámos: cenas banais que adquirem dimensões míticas, casas e autocaravanas cuja fragilidade lhes acrescenta valores narrativos, paisagens urbanas (ou não), degradadas (ou não) que se fazem cenários de um segredo. A fotografia e o filme permitem o recurso a um universo de memória coletiva; o desenho e as pequenas estruturas de exposição (que realiza como verdadeiras esculturas) conduzem-nos para um universo pessoal. O artista combina estas diferentes linguagens para compor um discurso que abre sucessivas pistas mas não fornece qualquer mapa de interpretação.

 

[João Pinharanda, Comissário]